sábado, 8 de novembro de 2014

Análise de Comerciais de Televisão - Análise do Discurso



Introdução

            Este trabalho apresenta uma análise de conteúdos publicitários divulgados na forma de comercial televisivo. Os corpora selecionados foram comerciais de televisão feitos para a promoção da marca "Carrefour Discount", marca própria de produtos da rede de supermercados e hipermercados Carrefour España divulgados em emissoras de televisão espanholas no primeiro semestre de 2010; comerciais do Grupo Carrefour en España propriamente dito; comerciais de televisão dos Biscoitos Ninfa, Margarina Delícia, Linguiça Sadia, Óleo Salada, produtos lácteos Piracanjuba e convênios médicos Unimed Campinas divulgados em emissoras de televisão brasileiras a nível nacional ou regional (no presente trabalho, tais comerciais, com exceção dos comerciais "Carrefour Discont", serão denominados "comerciais do grupo 2").
            O objetivo do trabalho é analisar os elementos que a publicidade utiliza para divulgação de produtos através do gênero comercial para televisão, como se dá sua interpretação, bem como quais os sentidos produzidos neste meio. Campanhas publicitárias que fazem referência a um viver feliz, sorridente e com a família unida ou qualidades de produtos que superam os produtos de marcas concorrentes sustentam as construções discursivas que podem ser encontradas em diversos anúncios televisivos. Por outro lado há comerciais que farão crítica a esse método utilizado pela publicidade e serão foco desta análise. A análise será desenvolvida e aprofundada através dos conceitos da Análise de Discurso.

A Análise de Discurso

            Os princípios e conceitos foram feitos com base na obra "Análise de Discurso - Princípios e procedimentos" - 5ª edição. Editora Pontes - de Eni P. Orlandi.

            A Análise de Discurso como uma disciplina independente surgiu nos anos 60 (séc XX), na França. Surge do questionamento do Estruturalismo, que era julgado como "esgotado". A Análise de Discurso (AD) propõe a relação da linguagem com a exterioridade, sobretudo o contexto histórico-social ideológico. Sua principal pergunta é "Como o texto (em sua discursividade) significa/produz sentidos?". Antes dos anos 60, porém, o estudo da língua funcionando para produção de sentidos e a análise de textos já ocorreram por estudiosos como Brèal, formalistas russos, Z. Harris, Halliday, etc.
            Não apenas a Línguística é questionada pela AD (usando-se da historicidade, que é apagada pela Linguística), mas também,  são colocadas questões para as Ciências Sociais (usando-se da questão da transparência da linguagem).
            A criação da AD vem da relação de três domínios: Marxismo (por sua definição de não transparência da história), Psicanálise (não transparência do sujeito) e Linguística (não transparência da linguagem). É produzido, assim, um novo recorte dessas disciplinas, e assim, um novo objeto: o discurso. Pois, AD não trabalha com a língua, nem com a gramática, mas com o discurso.
            Discurso por sua vez, é o objeto sócio-histórico, onde o línguístico intervém como pressuposto, e se consideram história e sociedade, já que elas significam. Discurso não lida apenas com transmissão de informação, e não se confunde com fala nem com língua. Trata-se, então, de efeito de sentido entre locutores, onde há processo de constituição e identificação de sujeito e produção de sentidos.
            A linguagem é concebida pela AD como mediação entre homem e realidade social, sendo a língua "opaca" (no mundo). Por mundo, entende-se onde são produzidos sentidos, onde homens (sejam sujeitos ou membros de uma sociedade) falam.
            Nos conceitos da AD, os processos/condições de produção da linguagem são considerados pela relação língua x sujeitos que a falam e pela relação língua x situação em que produz o dizer. Vê-se, então, que linguagem é relacionada à sua exterioridade.
            Ao ser produzido, o dizer traz consigo sentidos, tais sentidos só aparecem porque a linguagem é inserida na história. Não obstante, sentido não é absoluto, e não estão somente nas palavras, nos textos, mas sim, na relação com a exterioridade, nas condições de produção. Os dizeres são efeitos de sentido, produzidos em condições determinadas.
            Condições de produção abrangem sujeitos e situação, bem como a memória. Referem-se ao contexto imediato e ao contexto sócio-histórico, ideológico. A memória discursiva, vista como interdiscurso é o saber discursivo que permite todo dizer e que retorna sob a forma do pré-construído/ o já-dito. Logo, os sentidos já ditos por alguém, em outros tempos, em outros lugares, têm efeitos no que se diz, ou melhor, o interdiscurso (o dizer já dito) determina o que dizemos e se relaciona ao intradiscurso (o que se está dizendo em um dado momento, em uma dada condição). A prática discursiva leva em conta não só o que já foi dito, mas também COMO foi dito, bem como o não-dito naquilo que é dito.
            Assim, todo dizer se encontra na confluência da memória (constituição) e da atualidade (formulação), é daí que surgem os sentidos. Memória institucionalizada é arquivo, memória constitutiva, interdiscurso/efeitos de memória.
            A composição de um texto considera também a historicidade, que compreende o saber discursivo que foi se constituindo ao longo da história e foi produzindo os dizeres. A historicidade determina por que foi usado ESTE e não OUTRO enunciado (escolha feita pela ideologia) - OBS: Historicidade não se confunde com história, esta se refere ao que se dá no mundo; aquela, a questões do discurso.
            Naquilo que já foi dito, porém, encontra-se uma memória afetada pelo esquecimento. Tal esquecimento pode ser da ordem enunciativa (ilusão que nos faz crer que há uma relação direta entre "palavra" e "coisa", ou seja, relação termo-a-termo entre linguagem e mundo) ou da ordem ideológica (ilusão de sermos a origem do que dizemos, quando na verdade só ocorre retomada de sentidos pré-existentes, não tendo as palavras os significados que NÓS queremos. Costuma-se dizer que o Adão mítico foi o primeiro homem a produzir a primeiras palavras, estas significavam o que ele queria). Ao esquecer o que já foi dito, o sujeito se identifica com aquilo que diz e se constitui em sujeito.
            No que é dito há algo que se mantém, o dizível, a memória. O conceito de paráfrase trata do que, no dizer, se relaciona ao estável, à produtividade. Se há o estável no dizer, há o previsível e a manutenção (pois se retorna do interdiscurso). O que não se mantém, abrangido pela polissemia, sofre rupturas e deslocamentos, criando criatividade/diferença. O discurso se faz entre o mesmo (o mantido) e o diferente (o deslocado).
            Entre o mesmo e o diferente e, também, entre outros discursos, pois não há discurso que não se relacione com outros, ele aponta para discursos passados e para discursos que ainda virão. Por essa relação de sentidos, discurso não tem começo nem fim, não é algo fechado.
            Encontra-se ainda no discurso a chamada antecipação, que é o poder do sujeito de se colocar no lugar de seu interlocutor, antecipando os sentidos das palavras.
            O discurso se submete ainda a uma relação de forças, que leva em conta que o lugar de onde fala o sujeito é constitutivo do que ele diz. Logo, as palavras têm significados diferentes se faladas do lugar de professor, de aluno, de padre, de patrão, de operário, etc. Os lugares se organizam hierarquicamente, tendo uns mais forças que outros.
            Relação de sentidos entre discursos, noção de antecipação e relação de forças são formações imaginárias. Não é o sujeito físico que funciona no discurso, mas, sim sua imagem vinda de projeções, tais projeções fazem passar do empírico para as posições dos sujeitos nos discursos, estas posições significam em relação ao contexto sócio-histórico e à memória (o saber discursivo, o já-dito). Elas, as imagens, se constituem no confronto do simbólico e do político.
            Portanto, as condições de produção implicam o material, o institucional e também o imaginário. É o mecanismo imaginário que produz imagens dos sujeitos (locutor/interlocutor) e dos objetos do discurso. Além disso, as imagens são responsáveis por constituir as diferentes posições, condicionando os sujeitos em suas discursividades. Mas para se determinar o sentido, há que ver as condições de produção, memória e remetê-lo a uma Formação Discursiva.
            O sentido não existe em si, é determinado pelas posições ideológicas usadas quando da produção das palavras, estas mudam de sentido de acordo com a posição de quem as emprega. Trata-se de uma questão chamada Formação Discursiva.      
            A Formação Discursiva (FD) permite compreender o processo de produção dos sentidos, a sua relação com a ideologia e dá regularidades no funcionamento do discurso. Em suma, Formação Discursiva determina o que pode e deve ser dito. O dito pelo sujeito se inscreve em uma FD e não em outra, porque tem aquele sentido e não outro. A FD dentro do discurso representa Formação Ideológica. Assim, não há sentido que não seja determinado ideologicamente, há um traço ideológico ligado a outros. Lembrando que discursos se relacionam a outros discursos, bem como palavras se relacionam a outras palavras. O significado de uma mesma palavra pode mudar se se muda a FD. A Formação Discursiva não é, porém, um bloco homogêneo, pois há contradições e heterogeneidade; elas se configuram em si e se reconfiguram continuamente.
            Com isso, surge o papel da metáfora: a tomada de uma palavra por outra. Afinal, palavras não tem um sentido próprio/único, ocorre transferência de sentido.
            O analista de discurso deve remeter o dizer a uma FD (e não a outra) para compreender o sentido do que ali está dito.
            Contudo, um discurso sustentado por uma Formação Discursiva pode ser atravessado por outras Formações Discursivas, dadas, respectivamente, por um sujeito e por um anti-sujeito.
            Não há sentido sem interpretação: há presença de ideologia. O homem é levado a interpretar diante de um objeto simbólico, logo surge o sentido de modo implícito, como se lá já estivesse (apaga-se então a interpretação). A ideologia, porém, produz evidências, colocando o homem na relação imaginária com suas condições materiais de existência. É condição fundamental para a constituição do sujeito e dos sentidos, pois a ideologia interpela o indivíduo em sujeito, através de um "tecido de evidências subjetivas". Não há discurso sem sujeito e não há sujeito sem ideologia, que está ligada ao inconsciente do sujeito. A ideologia não é vista como visão de mundo, sua intervenção, contudo, torna possível uma relação termo-a-termo entre linguagem, mundo e pensamento.
            Para que haja sentido, é preciso algo a mais, é preciso que a língua se inscreva na história. Essa inscrição dos efeitos linguísticos materiais na história é chama discursividade.
            A Análise do discurso afirma, então, que língua, história e ideologia concorrem conjuntamente.
           
            A Análise - Comerciais de televisão

            O discurso publicitário encontrado em comerciais para televisão reapresenta estereótipos já conhecidos do público pressuposto. "Viva melhor com produto X" ou "Os grandes chefes recomendam o azeite da marca Y" são algumas das estratégias para promover produtos, utilizando-se de um discurso persuasivo, que demonstra possíveis qualidades, sentimentos e estilos de vida positivos que o produto promovido tende a proporcionar ao seu consumidor.
            Isso é apresentado nos comerciais do grupo 2. Neles, são explicitadas qualidades positivas que remetem ao consumo do produto promovido. Vida com amigos, vida a dois, sabores que a vida tem, estilos de vida com mais qualidade. Em todos, tais qualidades positivas se relacionam diretamente com a vida / o viver.
            As qualidades de vida vão ser dependentes dos desejos e das necessidades que o sujeito consumidor (ou, por se tratar de publicidade, sujeito consumidor alvo) tem, ou é condicionado a ter, dentro de confins estabelecidos culturalmente e socialmente, sempre sob a influência de condições socioeconômicas do grupo a que pertence. As campanhas em questão (grupo 2) utilizam-se então da relação (direta) que imaginariamente a aquisição de um produto tem com fatores da ordem da realização pessoal, da felicidade, do amor, do bem-estar, da inserção social, etc.
            Cria-se assim, uma formação discursiva onde a publicidade cria a realidade, ou melhor dizendo, a publicidade valoriza a realidade (em boa/correta e ruim/errada). Onde "viver bem" (o viver corretamente) significa viver com amigos, viver em família, sempre sorrindo, etc. A publicidade impõe assim, no momento em que ele chega ao seu enunciatário (sujeito consumidor), uma ideologia. Há imposição porque o meio publicitário não obtém resposta do sujeito consumidor, a quem a publicidade é dirigida. Ou seja, há um silenciamento da vida solitária, sem amigos ou família, sem sorrisos, abraços, beijos, etc; a realidade indesejada passa a ser mascarada.
             A publicidade utilizará, então, de uma ideologia: a do convencimento de seu público (a que compre a mercadoria) através de uma realidade dita como a "ideal". Tal ideologia, quando funciona (de acordo com os interesses dos publicitários/comerciantes), cria um agir inconsciente no sujeito consumidor, e este passa a agir como lhe determinam, ainda que haja a ilusão de um agir consciente, ou seja, o sujeito consumidor, iludido, crê que faz as escolhas "por vontade própria".
            O produto anunciado, portanto, é a mediação entre o sujeito consumidor e o "viver corretamente/bem". Onde produto "X" é um caminho fácil e curto para a felicidade, para a vida com qualidade, para se ter amigos, etc. Praticamente um milagre de transformação da vida só pelo consumo do produto. O sujeito consumidor associa o produto ao comercial (com todas suas cenas belas). O produto então será algo duplo: produto e o que ele (imaginariamente) proporciona.
            Surge, assim, uma significação que o produto traz. Por exemplo, a Margarina X não é apenas a margarina, ela traz consigo um significado e aplica esse significado ao seu consumidor. O consumidor dessa margarina é feliz, vive em bem-estar por que a consome.
            O resultado que o produto promove é representado pelos personagens (vividos por atores) no comercial. Os atores tomam e representam o lugar dos sujeitos consumidores, como se os fossem.
            Além da imposição ideológica (aquela que diz que vivem bem e corretamente é assim e não de outro modo), há uma imposição sobre o sujeito consumidor na escolha da marca do produto. O anunciante do produto de marca "Y" vai impor que apenas "Y" proporciona tudo aquilo que se mostra o comercial.
            Tanto a escolha da marca e a aquisição do produto fazem parte de um interdiscurso e de uma memórias discursiva, pois "compre nosso produto e seja feliz" já fora enunciado muito antes de o comercial chegar ao consumidor.
            Contrastando com os comerciais do grupo 2, os comerciais divulgados pelo Grupo Carrefour en España que são aqui abordados se dividem em duas categorias:

            1- Os que mostram que os produtos Carrefour Discount são aquilo que você quer, sem que tragam consigo sorrisos, bem-estar, felicidade, etc.

 





            2 - Os que mostram que o sujeito consumidor é livre para escolher a marca que prefere.





 


            Analisemos aqui um excerto de falas ocorridas durante um dos comerciais da primeira categoria:

"Compradora: Esses biscoitos me fazem levantar radiante pela manhã, pular na cama, correr com meu cachorro que nem tenho e tomar café da manhã todos os dias com minha família de bom humor e sem remelas nos olhos? E só pelo fato de  comê-los seria uma mulher de sucesso, muito atarefada, mas sempre formosa?
Vendedor: Não sei... Isto são apenas biscoitos, biscoitos para comer no café da manhã.
Compradora: Genial! É o que eu queria!
Locução: Se o que você quer são biscoitos, agora você tem o pacote de biscoitos Carrefour Discount por € 0,55. “O preço mais baixo, com a garantia Carrefour.”
            É perceptível que não se vincula (diretamente) o produto biscoitos da marca Carrefour Discount a uma vida mais feliz. O que são biscoitos, são apenas biscoitos sem ligações com expectativas e "sonhos de vidas felizes". O mesmo ocorre com os demais comerciais desta categoria (1), como o azeite Carrefour Discount que não é recomendado por nenhum cozinheiro famoso e os espaguetes que não transformam a cozinha de quem o consome em uma típica cozinha italiana.
            No que se refere aos comerciais da catergoria 2, há, em todos, um slogan dito por locução:

"Locução:  Seja por qual razão for, todos nós temos uma marca que amamos. Não somos ninguém para escolhê-la por você. Carrefour: te faz bem."

            É afirmado ai que o Carrefour España não impõe uma marca ao consumidor. Este, é livre para escolhê-la. Cria-se, assim, um efeito de superiorização do sujeito consumidor ao ser enunciado "Não somos ninguém para escolher a marca por você". Ou seja, esse comercial não decide pelo consumidor, digamos que o comercial não impõe uma ideologia que interpele o indivíduo em sujeito consumidor da marca X, mas sim, sujeito consumidor da marca de sua preferência. Há essa ideologia.
            Ainda que não haja vínculos entre felicidade, vida saudável (etc) e produto e, ainda que não seja imposta ao consumidor uma marca específica, ocorre uma retomada de um pré-construído, ou seja, demais anúncios publicitários já afirmaram (já disseram) sobre relação entre produto e vida (associada a qualidades positivas), já disseram que o consumidor deve comprar a marca anunciada (e não outra / concorrente). Os comerciais do Carrefour España retomam o que já disseram anúncios anteriores (de um tipo mais frequente: os comerciais do grupo 2) para afirmarem, então, não uma presença de uma "realidade fantástica / "perfeita" / de um "viver corretamente" imposto pela publicidade, mas de uma "realidade real" / "comum" / de um viver como se vive.
            Faz-se uso da estratégia alheia, retomam-se as formações discursivas base de outros anúncios, criam-se novas formações discursivas. Surge uma ideologia que resgata a consciência do sujeito consumidor (antes influenciado inconscientemente pela publicidade), como se dissesse: "Atenção! A concorrência os ilude, nós não". Procura-se evidenciar que é um anúncio que não mente e não ilude o sujeito consumidor. Revela-se que quem mente são os outros (anunciantes).
            Outro efeito que surge é a relação gasto de publicidade e preço. Há um reforço (não verdadeiro) da ideia "nossos produtos são mais baratos porque não gastamos com 'historinhas' para convencer o consumidor a consumir nossos produtos". É um dos efeitos que existem, mas não é verdadeiro pelo fato de, como qualquer campanha publicitária, haver gastos financeiros para a promoção dos produtos.
            Contrários aos que anunciam produto e felicidade, aos que impõem sua marca, os anúncios Carrefour Discount / Carrefour España mantém a ideologia consumista e a ideologia capitalista: há influência nos desejos, necessidades e satisfações dos consumidores, fazendo-se um convite ao público a consumir o produto anunciado, oferecendo-lhe realizações e felicidade quando do consumo do produto, dando também a ilusão de um progresso pessoal e social (às vezes até profissional). Consumidores acabam realizando os desejos dos anunciantes (o consumo de seus produtos), ao passo que pensam realizar os próprios desejos. Assim, a ideologia do capitalismo marca presença. A promoção gera aumento de vendas, por conseguinte, economia e consumo são movimentados. A publicidade (tanto de campanhas como do grupo 2, quanto as do Carrefour) estimula o lucro e funciona de acordo com interesses mercadológicos.

Conclusões
            A publicidade tende a se utilizar da representação de uma vida cotidiana adaptada a um discurso próprio, onde satisfações e realizações são conseqüências do consumo do produto promovido. Cria-se uma "vida perfeita" sempre associada às marcas/mercadorias e suas aquisições. Tal estratégia pode ser usada, ainda dentro da publicidade, para se criar uma outra estratégia de marketing, onde não se associa "vida perfeita" às aquisições, mas se afirma que se vende o que o consumidor precisa, a bom preço, sem impor nenhuma marca e sem ilusões e mentiras em relação a que o produto adquirido possa vir a proporcionar. É mantida, porém, a intenção do aumento de vendas e do lucro. Não se abandona, pois, as ideologias capitalista e consumista.

Bibliografia

BRANDÃO, Helena. Introdução à Análise do Discurso. 6ª edição. Campinas: Editora da Unicamp. 1997

GARCIA, Nélson. Propaganda: Ideologia e Manipulação. Versão eBook. Disponível em <http://www.ebooksbrasil.org/eLibris/manipulacao.html> Acessado em Nov/2011

ORLANDI, Eni. Análise de Discurso - Princípios e procedimentos. 5ª edição. Campinas: Pontes. 2003

ORLANDI, Eni. Discurso e Texto - Formulação e Circulação dos Sentidos. 2ª edição. Campinas: Pontes. 2005


Alterações Significativas da Língua Portuguesa

Alterações de nível fonético e fonológico

            Nasalização: Vogais que sucedem ou precedem consoantes nasais passam a ser nasalizadas. Exemplos: PONTE [põtʃɪ] (nasalização de vogal que precede consoante nasal). MUITO [muitʊ] (vogal nasalizada por suceder consoante nasal).

Alterações de nível morfológico

            Passagem de verbos da segunda conjugação para a terceira conjugação:
            Caer - cair
            Confonder - confundir
            Correger - corrigir
            Traer – trair

            Muitos verbos de segunda conjugação não passaram para a terceira conjugação, porém tiveram seus particípios (terminados em UDO) alterados por causa da analogia com os particípios da terceira conjugação (terminados em IDO):
            Teúdo - tido
            Perdudo - perdido
            Conhoçudo - conhecido

Alterações de nível sintático

            Durante o período do português clássico (que durou do século XV ao séculos XVIII) nota-se a substituição de haver por ter: "haver inveja" para "ter inveja" e "haver roubada sua terra" para "ter roubado sua terra"      

            Alterações de nível semântico

Por polissemia: 

            - A palavra gato, originalmente um felino de pequenas dimensões adquiriu outros sentidos como homem belo e método de furto de energia elétrica de fios e postes.
            - A palavra fazenda, originalmente coisas que devem ser feitas adquiriu um segundo significado: coisas já feitas por alguém, deste segundo sentido surgem as definições conjunto de bens e haveres (visto que quando alguém faz algo, esse alguém passa a possuir o que fez) e mercadorias e produtos, logo surge uma quarta definição: recursos financeiros do poder público (ainda em uso em expressões como Ministério/Secretaria da Fazenda). Da idéia de fazenda como mercadoria ou produto, associassem-se dois novos conceitos: grandes propriedades rurais (onde são gerados vários produtos agrícolas) e pano ou tecido (principal mercadoria produzida em larga escala com a Revolução Industrial)

Por metonímia e metáfora:

            - A palavra avião, do francês avion, significava inicialmente ave grande. Logo adotada para nomear o veículo aéreo.
            - A palavra tela definia um tipo de tecido usado para pinturas, com a chegada do cinema, a imagem era projetada sobre uma retângulo deste tecido. Mesmo com a chegada da televisão e outras formas de vídeo, o vocábulo se conservou.
            - A palavra caneta foi inicialmente usada para indicar um pequeno tubo, uma pequena cana, à qual se ajustava uma ponta para escrever.
            - A palavra porco, originalmente uma espécie de animal e passou a indicar as pessoas de pouca higiene como porcos.

Mudanças pejorativas:

            - A palavra vilão tinha o significado original de habitante de uma vila; devido ao preconceito contra os moradores pobres das vilas, a palavra vilão foi se desenvolvendo até chegar no sentido de malvado.
            - A palavra criado tinha o sentido de uma pessoa órfã ou filha de pobres, que era criada como filho por uma família, porém o “filho adotivo” acabava sendo transformado em um empregado doméstico sem salário, a palavra criado adquire o sentido de serviçal doméstico.

Mudanças melhorativas:

            - A palavra barriga era pejorativa, significando barrica (pequeno barril); com o tempo porém, ela perde o sentido pejorativo e passa ser usada como sinônimos de ventre.

Mudanças pelo tabu:

            - As palavras vagina e ânus, vindas do latim vagina e anulus, significavam respectivamente vagenzinha (pequena vagem) e anelzinho, eufemismos usados por causa do tabu sexual; atualmente, elas se tornaram termos científicos amplamente difundidos.

Mudança por diferente contexto:

            - Companhia significava apenas o oposto de solidão; quando utilizada no âmbito do comércio, passa a ter o significado de empresa com vários donos.

Mudança por ampliação do significado:

            - A palavra armário indicava na Idade Média um lugar específico para se guardar as armas; por um processo de ampliação de significado, ela passa a designar qualquer móvel destinado a guardar coisas.
            - A palavra paquerar designava especificamente observar pacas com intuito de caçar; num processo de ampliação de significado, passa a indicar observar pessoas com interesse.
            - A palavra clássico indicava apenas os autores e obras que eram lidos em classe (sala de aula); por um processo de ampliação de significado passa a indicar qualquer autor ou obra aclamado ou famoso.

Mudanças por restrição do significado:

            - A palavra paixão indicava qualquer emoção profunda, positiva ou negativa (daí a Paixão de Cristo); atualmente, houve uma restrição de significado e o termo paixão passou a indicar apenas emoção profunda positiva.

Mudanças por equívoco de interpretação:

             - A palavra missa não estava relacionada às cerimônias religiosas, era, porém, o particípio passado do verbo latino mittere (terminado), que era enunciado quando as cerimônias terminavam (“Ite missa est” - "Esta - cerimônia- está terminada"). Os fiéis entendiam que missa era o nome da cerimônia, que antes era celebrada em latim.
            - A palavra floresta tinha o significado original de área do lado de fora da cidade e era escrita foresta; como a parte de fora da cidade normalmente era arborizada, o povo entendeu que ela era derivada de flora e significava mata, daí sua forma e significado atuais.


fontes:
http://www.iltec.pt/pdf/wpapers/2005-mhmateus-mudanca_lingua.pdf (acessado em maio/2011)
http://www.filologia.org.br/soletras/2/11.htm (acessado em maio/2011)
http://cvc.instituto-camoes.pt/conhecer/bases-tematicas/historia-da-lingua-portuguesa.html (acessado em maio/2011)

Resumo: Gramática e interação: uma proposta para o ensino de gramática (Luiz Carlos Travaglia)



Textos: - Gramática e interação: uma proposta para o ensino de gramática (Luiz Carlos Travaglia) (páginas 21, 22 e 23 - 9ª edição - Cortez Editora)
            - Excertos dos Parâmetros Curriculares Nacionais

            Em Gramática e interação: uma proposta para o ensino de gramática, Travaglia apresenta três modos de conceber linguagem e a importância da concepção do professor para o ensino da língua materna.
            O primeiro modo de concepção considera linguagem e pensamento como elementos dependentes, tendo a linguagem como função, portanto, de exteriorizar pensamentos; não há dependência de para quem se fala, tampouco da situação. O  segundo modo considera a linguagem como meio de comunicação. Há uso da língua, através do uso de signos,  para troca de mensagens entre falantes. O terceiro modo vê a linguagem como meio de interação entre falantes, levando em conta a situação de comunicação e o contexto sócio-histórico e ideológico.
            De tal interação, pode-se observar, segundo reflexões dos Parâmetros Curriculares Nacionais, que o professor, nos ciclos iniciais sobretudo, deve frisar o tipo de linguagem que se deve utilizar para cada situação do uso da língua. Deve se ignorar conceitos de "certo" e "errado" e dar ênfase ao "adequado" e "inadequado".  Deve-se, pois, dar atenção à adequação do modo de expressão e interpretação da língua em determinadas situações, que terão diferentes interlocutores, ocorrerão em diferentes locais e com contextos diferentes. A expressão e a interpretação da língua, sejam pelo modo escrito (escrita e leitura) ou pelo modo oral (fala e escuta), devem ser, apesar dos erros esperados, provocadas no aluno.

Análise – Comercial das sandálias Havaianas





Encontramos, como participantes do diálogo que ocorre durante o comercial, três sujeitos: o ator brasileiro Lázaro Ramos, um vendedor de banca de praia e um homem argentino. Todos estão na banca do vendedor.
O diálogo começa quando o vendedor cumprimenta Lázaro (E aí, Lázaro?), este responde de maneira que nos permite perceber certa proximidade, intimidade e fraternidade que há entre os brasileiros meu irmão, e aí?! Beleza?!). Logo, o vendedor comenta o fato de suas sandálias serem iguais ao do conhecido ator. Nota-se, porém, que não é dita a palavra chinelo, tampouco a palavra sandália (Sua Havaianas é igual a minha), mas sim, Havaianas, o que faz do nome da marca um sinônimo para o nome do produto.
Lázaro responde que, ainda que os dois tenham sandálias iguais, o vendedor é mais feliz, já que pode, tendo a praia como local de trabalho, trabalhar todos os dias usando as sandálias. O vendedor responde exclamando: Ah isso aqui é que é escritório né?”. Partindo dessas falas, vemos a idéia de que o uso, que proporciona conforto, das típicas sandálias brasileiras e a beleza e agradabilidade de uma típica praia brasileira são fatores que elevam a felicidade de um sujeito. Há uma forte comparação do ser brasileiro e do usar/ter sandálias Havaianas.
Os dois sujeitos brasileiros, após analisarem a beleza e vantagens do Brasil, do ser brasileiro e do ter sandálias Havaianas, comentam que apesar de tudo, há problemas e dificuldades no Brasil. Entra, então, o sujeito argentino, que, em espanhol, fala que também se mostra inconformado com os tantos problemas que há no Brasil. Ainda que não se havia apresentado como cidadão argentino,  a rivalidade que há entre Brasil e Argentina (explorada pelo comercial) e principalmente o uso da língua espanhola revelam a nacionalidade deste terceiro sujeito. Apesar de Lázaro e do vendedor admitirem os problemas brasileiros, não admitem que tais problemas sejam reconhecidos por aquele que não seja do Brasil, negando, logo, as existências dos problemas e das dificuldades. Encontramos aí um nacionalismo e a idéia de que alguém de fora não teria permissão e qualificação para criticar o Brasil.
É grande, portanto, no comercial, a relação do uso de Havaianas e do patriotismo brasileiro. Havendo uma ligação entre ambos. Isso é claramente evidenciado e concluído na ultima fala, do narrador do comercial: Havaianas, o orgulho do Brasil.”. A palavra Havaianas toma o lugar da palavra patriotismo (que tem como definição amor/orgulho da pátria). Igualando essas duas palavras.