sábado, 8 de novembro de 2014

Variação Linguística - variação de concordância verbal



            Este trabalho visa analisar a variação de concordância verbal que há do uso do verbo pronominal “chamar(-se)” em situações de sujeito posposto ao verbo. Analisando conteúdos escritos encontrados na internet, foram consideradas duas variações desse verbo: seu uso seguindo a concordância verbal de acordo com sujeito que o acompanha e seu uso sem concordância verbal de acordo com o sujeito. A análise foi delimitada ao verbo conjugado em terceira pessoa, no tempo presente do modo indicativo em ocorrências nas seguintes expressões exatas:

·         “Como se chamam os”.
·         “Como se chama os”.
·         “Como se chamam as”.
·         “Como se chama as”.

Considerando o determinante (os / as) como parte de um sintagma nominal formador do sujeito (portanto, um sujeito que se encontra no plural), temos as expressões 1 e 3 seguindo a concordância verbal e as expressões 2 e 4 sem segui-la.
As quatro expressões foram pesquisadas na internet através do motor de busca online Google (www.google.com.br). Foram aplicados dois filtros de conteúdo visando restringir os resultados: um para localização de páginas apenas em língua portuguesa e outro para localização de páginas publicadas no Brasil ou em Portugal. No total, foram realizadas oito buscas, a saber:



            A concordância verbal está sujeita a variações vindas de fatores linguísticos e sociais. Como fatores linguísticos, temos: posição do sujeito em relação ao verbo (posposto) e presença da partícula se. Como fatores sociais relevantes para esta análise, temos: local do uso da língua (Brasil / Portugal) e grau de formalidade (formal / informal). 

A posição do sujeito em relação ao verbo (fator linguístico)

            Segundo o artigo "Português brasileiro no fim do século XIX e na virada do milênio"¹, em sentenças interrogativas-Q, a ordem Verbo-Sujeito (VS) era predominante no português brasileiro (PTB) no século XIX e ínicio do século XX (ex: "Mas o que tens tu?"). No português brasileiro moderno, porém, a ordem VS se apresenta predominantemente em interrogativas-Q com verbos monoargumentais / monovalentes.        
            Considerando o verbo "chamar(-se)" um verbo de valência 1 quando usado nas expressões "Como se chama(m) o(s)/a(s)?" (interrogativas - como maioria das sentenças obtidas), há uma tendência para que ocorra a ordem VS (ex: "Como se chamam os habitantes do Lácio?" em lugar de "Como os habitantes do Lácio se chamam?"). Não são todas as sentenças obtidas que são interrogativas. Nas afirmativas, pode-se dizer que o advérbio "como" não só atrai a partícula se (ainda que não seja um pronome, pode dar noção de pronome apassivador, como explicado no próximo tópico), gerando um caso de próclise, como atrai também todo o conjunto [se+verbo], como se fosse um conjunto inseparável, já cristalizado (ex: "Não me lembro como se chamam as tais bonecas folclóricas russas(...)").
            O sujeito posposto não tem as características típicas de sujeito em português. Ele apresenta mais características de um objeto (que se encontra, em sua posição típica, imediatamente após o verbo) e de um "elemento paciente", visto que ocorre após o verbo (enquanto o agente, tipicamente, antecede o verbo - como um sujeito típico). Por essas características,pode haver tendência de ausência de conjugação verbal (CV) nas expressões pesquisadas, uma vez que objeto/paciente não influenciam a forma do verbo.
           
            Presença da partícula se            (fator linguístico)

            Em seu texto "Joga-se os grãos...", Sírio Possenti diz que a partícula se quando desempenha a função que a gramática normativa denomina "pronome apassivador" tende a ser encarado como um "índice de indeterminação do sujeito" (ex: "Aluga-se esta casa" tende a ser analisado como "Alguém - intederminado - quer alugar esta casa" em detrimento de "Esta casa é alugada"). Logo, o que era sujeito, passa a ser visto como objeto.
            No verbo "chamar(-se)", porém, a partícula se é uma "parte integrante do verbo", pois o verbo em questão é um verbo pronominal (como arrepender-se, queixar-se, enganar-se, sentar-se, etc).
            Uma possível ausência de concordância verbal nas expressões analisadas neste trabalho pode ser justificada, no que se refere à presença da partícula se,  com as duas seguintes possibilidades:
            1) Partícula se é considerada um "pronome apassivador", logo, de acordo com a explicação de Possenti, o sujeito passa a ser visto como um objeto e é considerada a ocorrência de sujeito indeterminado ("Como se chama as músicas?" --> "as músicas" é visto como objeto / "Como se chama...": ocorrência de sujeito indeterminado)
            2) Partícula se é considerada uma "partícula de realce", logo, não há diferença em "Como se chama as meninas?" e "Como chama as meninas?". Neste caso, contudo, a não concordância é devido à posição do sujeito (VS) como explicado acima.

Local do uso da língua (fator social)

            Como pode ser visto nos gráficos (em anexo), a ausência de concordância verbal, nas expressões buscadas, ocorre em menores proporções nas expressões obtidas em páginas de Portugal. Em contrapartida, maioria das sentenças obtidas em páginas do Brasil apresenta ausência de conjugação verbal de acordo com o sujeito, ou melhor, de acordo com o sintagma considerado sujeito pelas normas gramaticais (já que não necessariamente tal elemento é visto como sujeito, como dito anteriormente). Tais resultados não eram esperados, pois se esperava predominância de concordância verbal. Os fatores linguísticos (ordem VS e partícula se) parecem não afetar o português luso tanto quanto afetam o brasileiro. O que distingue a não concordância verbal de expressões de páginas portuguesas das expressões de páginas brasileiras, além da frequencia, é o grau de formalidade.
           
            Grau de formalidade (formal/informal) (fator social)

            Para resultados de Portugal, a concordância verbal ocorreu predominantemente em contextos de uso formal, enquanto sua ausência ocorreu em contextos de uso informal. No Brasil, tanto as formas com discordância verbal quanto as com corcondância ocorreram independentemente do grau de formalidade. Ainda que em desacordo com as normais gramaticais, expressões como "Como se chama os elementos de travamento(...)" são encontradas em situações que exigem grau de formalidade (provas de concursos, sites de institutos de universidades, provas escolares, etc). Em Portugal, pelo que mostram os resultados, a ausência de concordância com o verbo escolhido ainda não é admitida em ambientes que exigem formalidade, sendo, provalvemente, uma variante estigmatizada, assim, a presença de concordância será a variante de prestígio. Já no Brasil, pelo seu uso em contextos formais, a ausência de concordância já pode ser considerada um indicador, não havendo estigmatização ou prestigiação quanto às duas variantes.

ANEXOS

Gráficos

Tabelas de amostras de resultados
 
Expressão “Como se chamam os” em resultados publicados em páginas de Portugal:
  

Contexto de uso da expressão
Página de publicação
Contexto formal/informal
Como se chamam os habitantes dos Países Baixos? Os Países Baixos é(...)
Publicação de artigos gerais
Formal
(...)raramente paramos para pensar nos nossos dentes. Sabe quantos são e como se chamam os dentes que temos?
Artigos sobre odontologia
Formal
Como se chamam os electrões responsáveis pela imagem no microscópio eléctrico (...)
Página do “Centro de Microscopia Electrónica” da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa
Formal
Como se chamam os habitantes do Lácio?
Os habitantes do Lácio chamam-se Latinos.
Página pessoal de um professor de História de uma escola secundária
Formal
Como se chamam os cabos que ligam da tomada da antena á televisão?
Precisava de um cabo desses(...)
Fórum sobre informática
Informal
Gostaria de saber como se chamam os naturais do Caribe. Procurei no vosso dicionário por caribenho. Estará correcto?
Fórum de site de empresa desenvolvedora de softwares relacionados à língua portuguesa (corretores ortográficos, dicionários, etc)
Formal


 Expressão “Como se chama os” em resultados publicados em páginas de Portugal:
 

Contexto de uso da expressão
Página de publicação
Contexto formal/informal

Como se chama os fãs de shoujo-ai e yuri?  Bom, até onde eu saiba não existe um nome

Fórum sobre mangá
Informal
Como se chama os comprimidos que tomaste deorou quanto tempo a secar o leite? tiveste alguma dor com a secagem do leite?
beijinhos
Fórum sobre maternidade
Informal
Es K Tribo?e Tens Kuanto De Pop E Produçao?e Como Se Chama Os Atakantes?e Kom Kuantas (...)
Fórum sobre jogos online
Informal
Como se chama os 4 kages de existentes nas vilas: Konoha -Loki, Kiri-Okashi
Fórum sobre jogos de RPG
Informal
NAO SEI SE SOMOS PRIMOS,COMO SE CHAMA OS TEUS PAIS?OS MEUS CHAMA-SE MARIO FRACISCO VALENTE,PORTUGUES MAIS VIVEU MUITOS ANOS EM ANGOLA,E MORREU LA,BJS
Página pessoal em uma rede social
Informal
Como se chama os multimetros que não temos de seleccionar os valores?

Fórum sobre informática
Informal

  

Expressão “Como se chamam as” em resultados publicados em páginas de Portugal:

Contexto de uso da expressão
Página de publicação
Contexto formal/informal
Como se chamam as duas persongens principais da história?
Página de uma escola secundária
Formal

Gosta muito que os seus pais lhe digam como se chamam as coisas e que assinalem com o dedo.
Artigos sobre desenvolvimento infantil
Formal
Como se chamam as "famílias" a que pertencem os elementos dos grupos 1, 2, 17 e 18?
Página de um centro de formação de professores
Formal
Como se chamam as células assinaladas com setas na figura 1B?
Página da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto
Formal
Como se chamam as pessoas naturais de Águas de Moura (distrito de Setúbal)?
Fórum sobre língua portuguesa
Formal
Num processo litigioso como se chamam as duas partes?
Fórum sobre gestão de condomínios
Formal

Expressão “Como se chama as” em resultados publicados em páginas de Portugal:

Contexto de uso da expressão
Página de publicação
Contexto formal/informal
Boas... alguém me sabe dizer como se chama as árvores que se vêm muito por aí nas ruas e jardins que têm uma folha acastanhada(...)
Fórum sobre jardinagem
Informal
Eu so queru saber como se chama as palavras “musica, estudante, banda e colegio em Russo”
Comentário em um tópico sobre músicas russas
Informal
Eb1 Castelo diz:
como se chama as raparigas??????????
Eb1 Castelo diz:
Sou'tiago
Póvoa do Loureiro diz:
RITA E CAROLINA
Bate-papo entre alunos de 4º ano (site de uma escola básica)
Informal
amiga vou pesquisar por aqui pra saber como se chama as natas rsrs
Comentário em um blog pessoal
Informal
õk obrigada e só uma coisa, como se chama as tres musicas que muitas vezes da na introdução dessa serie, dava na RTP2
Blog sobre série de desenho animado
Informal
Como se chama as plantas que compoem um tapete baixo no substrato e se me aconselham tbem essas plantinhas??
Blog sobre criação de peixes em aquários
Informal





Expressão “Como se chamam os” em resultados publicados em páginas do Brasil:

Contexto de uso da expressão
Página de publicação
Contexto formal/informal
Como se chamam os fãs da Avril Lavigne? Tipo, as fãs do Justin Bieber são beliebers, os da Selena Gomez são selenators
Fórum de perguntas gerais (Yahoo respostas)
Informal
Você se perguntou como se chamam os nutrientes depois de serem digeridos? Cada nutriente recebe um nome
Página de um projeto da UFRJ
Formal
Os três amigos Harry, Rony e Hermione têm animais de estimação que adoram. Como se chamam os bichinhos, respectivamente?
Quis em site de revista (Época)
Formal
Como se chamam os pontos em que o planisfério está centrado?
Página do Instituto de Física da UFRGS
Formal
Como se chamam os filhotes de cágados? Seriam tartaruguinhas ?!?!?!?!?!
Blog de humor geral
Informal
O que se entendo por alimentos funcionais? Como se chamam os componentes bioativos destes
alimentos?
Departamento de botânica da USP
Formal

Expressão “Como se chama os” em resultados publicados em páginas do Brasil:

Contexto de uso da expressão
Página de publicação
Contexto formal/informal
Como Se Chama Os Desenhos Que Se Mexem Do Tumblr
Página de gifs (imagens com movimentos)
Informal
como se chama os dois pontos de contato direto como ectoderma?
Departamento de biologia celular e do Desenvolvimento - USP
Formal
tomara q o time adversario nao confunda com os banderinhas ou os neguinhu q repoem ah bola (esqueci como se chama os fdps!)
Fórum sobre vídeo-game
Informal
Como se chama os elementos de travamento das formas para evitar abertura durante a concretagem?
Prova de concurso público (site: prefeitura de Santa Rosa – RS)
Formal
Você sabe como se chama os objetos de cada grupo?
Página do Programa de Pós-graduação em Matemática da Universidade Feral de Outo Preto
Formal
(...) terminações axônicas, entram em contato com outros neurônios, passando-lhes informações. Como se chama os locais de tais contatos?
Site de provas de concursos públicos (Prova de concurso para professor de Ed. Física da prefeitura de Pacatuba – CE)
Formal



 Expressão “Como se chamam as” em resultados publicados em páginas do Brasil:

Contexto de uso da expressão
Página de publicação
Contexto formal/informal
Como se chamam as ruínas astecas no Peru?
Site de educação infantil
Formal
observou pela primeira vez esses gamelas , como se chamam as células encarregadas da reprodução
Artigo de biologia (site da revista Super Interessante)
Formal
Como se chamam as duas barrinhas que tem na lateral e embaixo do navegador (...)
Fórum de perguntas gerais (Yahoo respostas)
Informal
Não me lembro como se chamam as tais bonecas folclóricas russas: são as que são ocas(...)
Site de uma docente da Universidade Estácio de Sá
Formal
como se chamam as suas tartarugas???
a minha tartaruga se chama mafarda!!!eu amu dmais ela!!!

Comunidade de rede social (Orkut)
Informal
Como se chamam as sub-partículas que rodam à volta do núcleo?
Site de escola
Formal

Expressão “Como se chama as” em resultados publicados em páginas do Brasil:

Contexto de uso da expressão
Página de publicação
Contexto formal/informal

C's sabem como se chama as músicas q tocam nessa música?

Fórum de perguntas gerais (Yahoo respostas)
Informal
É como se chama as ações em paralelo, ou seja, as alternativas, decisões das personagens no contexto da história
Artigo publicado na Página do Departamento de Estatística, Matemática Aplicada e Computação da Unesp
Formal
Olá Maestro Billy ! Tudo bem ?
Gostaria de saber como se chama as musicas que você usa no programa do Luciano Huck
Comentário em site pessoal de um DJ
Informal
Doulas  é como se chama as pessoas que dão suporte físico e emocional a mulheres grávidas.
Site sobre cursos técnicos
Formal
Como se chama as substâncias  que conduzem corrente elétrica em estado sólido?
Blog de educação (Prova de Química – ensino médio)
Formal
como se chama as tranças indianas que vc colocou ai?por favor me fala!tenho 11 aninhos!bjs
Blog sobre “escova progressiva”.
Informal

 

ANÁLISE DE TEXTO APLICANDO A TEORIA SEMIÓTICA



Texto para análise: "O Presente dos Magos" de O. Henry.

“O Presente dos Magos”

                Um dólar e oitenta e sete centavos. Era tudo. E sessenta centavos eram em moedas. Moedas economizadas uma a uma, pechinchando com o dono do armazém, o dono da quitanda, o açougueiro, até o rosto arder à muda acusação de parcimônia que tais pechinchas implicavam. Três vezes Della contou o dinheiro. Um dólar e oitenta e sete centavos. E no dia seguinte seria Natal.
                Não havia evidentemente mais nada a fazer senão atirar-se ao pequeno sofá puído e chorar. Foi o que Della fez. O que leva à reflexão moral de que a vida é feita de soluços, fungadelas e sorrisos, com predomínio das fungadelas.
                Della terminou de chorar e cuidou do rosto com a esponja de pó. Postou-se junto à janela e ficou a contemplar melancolicamente um gato cinzento caminhando sobre uma cerca cinzenta num quintal cinzento. Amanhã seria Dia de Natal e ela tinha apenas um dólar e oitenta e sete centavos para comprar o presente de Jim. Estivera a economizar tostão por tostão havia meses, e esse era o resultado. As despesas tinham sido maiores do que calculara. Sempre são. Apenas um dólar e oitenta e sete centavos para comprar o presente de Jim. O seu Jim. Muitas horas felizes passara ela planejando comprar-lhe alguma coisa bonita. Alguma coisa fina, rara, legítima – algo que estivesse bem perto de merecer a honra de ser possuída por Jim.
                Subitamente, afastou-se da janela e postou-se diante de um espelho. Seus olhos estavam brilhantes mas sua face perdeu a cor ao cabo de vinte segundos. Num gesto rápido, soltou o cabelo e deixou desdobrar-se em toda a sua extensão.
                Ora, os James Dillingham Youngs tinham dois haveres de que muito se orgulhavam. Um era o relógio de ouro de Jim, que pertencera a seu pai e a seu avô. O outro era o cabelo de Della.
                O cabelo de Della, pois, caiu-lhe pelas costas, ondulando e brilhando como uma cascata de águas castanhas. Chegava-lhe abaixo do joelho e quase lhe servia de manto. Ela então o prendeu de novo, célere e nervosamente. A certo momento, deteve-se e permaneceu imóvel, enquanto uma ou duas lágrimas caíam sobre o puído tapete vermelho.
                Vestiu o velho casaco marron; pôs o velho chapéu marron. Desceu rapidamente a escada que levava à rua. Parou onde havia um letreiro anunciando: “Mme Sofronie, Artigos de Toda Espécie para Cabelos”. Della subiu a correr um lance de escada e se deteve no alto, arquejante para recompor-se. Madame, corpulenta, alva demais, fria.
                - Quer comprar meu cabelo? – perguntou Della.
                - Eu compro cabelo – disse Madame. – Tire o chapéu e vamos dar uma olhada no seu.
                Despenhou-se, ondulante, a cascata de águas castanhas.
                - Vinte dólares – ofereceu Madame, erguendo a massa com mão prática.
                - Dê-me o dinheiro depressa – pediu Della.
                Oh, as duas horas seguintes voaram com asas róseas. Della se pôs a vasculhar as lojas à procura de um presente para Jim.
                Encontrou-o por fim. Fora feito para ele e para ninguém mais. Nada havia que se lhe parecesse nas outras lojas, e ela as revirara de alto a baixo. Era uma corrente de platina, curta, simples e de modelo discreto, proclamando adequadamente seu valor por sua mesma substância e não por qualquer ornamentação espúria. Era digna até do relógio. Tão logo a viu, soube que tinha de ser de Jim. Era como ele. Serenidade e valor – a descrição se aplicava a ambos. Vinte e um dólares cobraram-lhe por ela, e Della correu para casa com os oitenta e sete centavos. Com aquela corrente no relógio, Jim poderia preocupar-se decentemente com o tempo na frente de qualquer pessoa. Grande como era o relógio, ele às vezes o consultava meio envergonhado devido à velha tira de couro que usava em lugar de corrente.
                Quando Della chegou em casa, seu embevecimento cedeu lugar a um pouco de prudência e razão. Pegou os ferros de frisar, acendeu o gás e pôs-se a reparar os estragos causados pela generosidade acrescida ao amor. O que sempre é uma tarefa muito árdua, queridos amigos – uma tarefa gigantesca.
                Ao cabo de quarenta minutos, sua cabeça estava coberta de pequenos caracóis cerrados, que a faziam parecer, admiravelmente, um menino vadio.
                Às sete horas, o café estava preparado e uma frigideira quente no fogão esperava o momento de fritar as costeletas. Jim nunca se atrasava. Della dobrou a corrente no côncavo da mão e sentou-se a um canto da mesa, perto da porta pela qual ele sempre entrava. Ouviu então seus passos no primeiro lance da escada e empalideceu por um instante.
                - Oh, Deus, fazei-o por favor achar-me ainda bonita!
                A porta se abriu, Jim entrou e a fechou. Parecia magro e muito sério. Pobre sujeito, apenas vinte e dois anos e já responsável por uma família! Precisava de um sobretudo novo e não tinha luvas.
                Jim Avançou alguns passos. Seus olhos estavam fitos em Della e havia neles uma expressão que ela não conseguia ler e que a aterrorizava. Não era raiva, nem surpresa, nem desaprovação, nem horror; não era nenhum dos sentimentos para os quais ela estava preparada.
                Della esgueirou-se para fora da mesa e se encaminhou para ele.
                - Jim, querido – gritou – não me olhe desse jeito! Mandei cortar o cabelo e o vendi porque não poderia passar o natal sem dar um presente a você. Ele crescerá de novo… não se aborreça, por favor. Meu cabelo cresce terrivelmente depressa. Diga “Feliz Natal!”, Jim, e fiquemos felizes. Você não sabe que coisa bonita, que belo presente tenho para você.
                - Mandou cortar o cabelo? – perguntou Jim a custo, como se não tivesse ainda compenetrado desse fato patente após o mais árduo esforço mental.
                - Cortei-o e vendi-o – disse Della. – Você não continua a gostar de mim do mesmo jeito, então? Não precisa procurar por meu cabelo, foi vendido, como lhe disse… vendido, não está mais aqui. É véspera de Natal, querido. Seja bonzinho comigo, fiz isso por sua causa. Ninguém poderá jamais avaliar o meu amor por você. Posso fritar as costeletas, Jim?
                Emergindo do seu transe, Jim pareceu despertar rapidamente. Abraçou a sua Della. Os magos trouxeram presentes valiosos, mas isso não estava entre eles. Esta asserção obscura será esclarecida mais tarde.
                Jim tirou um pacote do bolso e atirou-o sobre a mesa.
                - Não me interprete mal, Della – disse. – Não acho que haja alguma coisa, corte de cabelo, raspagem ou xampu, capaz de fazer-me gostar menos da minha mulherzinha. Mas se você abrir este pacote, poderá ver por que fiquei abalado no princípio.
                Alvos dedos ligeiros desfizeram o atilho e o embrulho. Ouviu-se então um grito extático de alegria, e depois, ai!, uma súbita mudança feminina para as lágrimas e os gemidos, que exigiram o imediato emprego de todos os poderes de consolação do senhor do apartamento.
                Pois sobre a mesa jaziam Os Pentes – o jogo de pentes para cabelos que Della adorara havia muito numa vitrine. Belos pentes, de tartaruga legítima, orlados de pedraria – da cor exata para combinar com seu lindo cabelo. Eram pentes caros, ela o sabia, e seu coração se limitara a desejá-los e a suspirar por eles sem a menor esperança de vir um dia a possuí-los. E agora pertenciam-lhe, mas as tranças que os anelados enfeites deveriam adornar não mais existiam.
                Ela, porém, os apertou contra o peito e, por fim, pode erguer os olhos nublados, sorrir e dizer:
                - Meu cabelo cresce tão depressa, Jim!
                Jim ainda não vira o seu belo presente. Ela lho estendeu ansiosamente na palma da mão aberta. O fosco metal precioso parecia brilhar com o reflexo do seu jubilante e ardente espírito.
                – Não é uma beleza, Jim? Vasculhei a cidade toda para achá-lo. Doravante, você terá de ver as horas uma centena de vezes por dia. Dê-me o seu relógio. Quero ver como fica nele.
                Em lugar de obedecer, Jim deixou-se cair no sofá, pôs as mãos atrás da cabeça e sorriu:
                – Della – disse -, vamos por os nossos presentes de Natal de lado e deixá-los por algum tempo. São lindos demais para poderem ser usados agora. Vendi o relógio para comprar os seus pentes. Que tal se você fritasse as costeletas agora?

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Análise semiótica - O Presente dos Magos

                O texto "O presente dos Magos" é um texto verbal, portanto, o foco desta análise estará em seu Plano de Conteúdo através do Percurso Gerativo do Sentido.

Nível Discursivo             

                "O presente dos Magos" consiste em um texto composto predominantemente por figuras, portanto, temos um texto figurativo, encontramos como figuras: de pessoa: Della, Jim e Madame Sofronie; de tempo: "dia seguinte", "dia de Natal", "horas felizes passadas planejando a compra", "duas horas seguintes", "ao cabo de quarenta minutos", "às sete horas", "véspera de Natal" e de espaço: rua, casa, primeiro lance da escada, cidade.
                Temos como Percusos Figurativos referentes às figuras de pessoa: para Della: economizar dinheiro, querer comprar um presente, vender o cabelo, comprar a corrente, receber os pentes de Jim, entregar a corrente a Jim; para Jim: chegar em casa, mostrar os pentes a Della, vender o relógio, receber a corrente e para Madame Sofronie: comprar o cabelo. Temos também os Percursos Figurativos referidos às figuras de tempo: "Dia de Natal", "Véspera de Natal", que geram a necessidade da compra dos presentes e referidos às figuras de espaço: "casa", que figurativiza, através das descrições (pequeno sofá puído, puído tapete vermelho, etc), a situação e condição em que viviam Jim e Della.

                Quanto aos Percursos Temáticos, podemos aplicar, às figuras de pessoa: para Della: tema da pobreza (por ecomizar uma quantia pequena), tema da consideração (por comprar um presente a Jim), tema do sacrifício (por se desfazer do bem mais precioso para presentear Jim); para Jim: tema da consideração (por comprar um presente a Della), tema da conformidade (por se conformar com os presentes não muito adequados) e para Madame sofronie: tema da lucratividade (por ser comerciante, por comprar o cabelo). Em relação às figuras de tempo, temos duas figuras ("Dia de Natal" e "Véspera de Natal") que podem trazer o tema da cultura cristã. Quanto aos Percusos Temáticos das figuras de espaço, não há indicadores significativos.
                Encontramos um efeito de objetividade no texto, visto que todas as categorias de debragem são enuncivas, com exceção das debreagem internas. "Della terminou de chorar e cuidou do rosto" revela debreagem temporal e actancial enunciva (então/ele). "Postou-se diante de um espelho" mostra uma debreagem espacial enunciva (lá). Porém, um efeito de subjetividade surge quando da delegação da voz a um sujeito: -"Meu cabelo cresce tão depressa, Jim!" / -"[...] vasculhei a cidade toda para achá-lo". Encontramos debreagem interna actancial enunciva na primeira fala e na segunda fala, actancial enunciativa também em ambas as falas, temporal enunciativa na primeira fala, temporal enunciva na segunda fala e espacial enunciva na segunda fala.

Nível Narrativo

                Jim e Della são figuras que representam os papéis actanciais de dois sujeitos, ora de estado, ora de fazer. Quanto aos programas narrativos do sujeito "Della", encontramos:

                PN1 = economia de dinheiro [Della → (Della Ω dinheiro)]

                PN2 = venda do cabelo [Della → (Della Ω corrente)]

                No PN1 e no PN2, Della é tanto o sujeito do fazer (pois realiza a transformação) quanto o sujeito de estado (pois é o sujeito que entra em conjunção ou disjunção com objetos de valor).
                Para os programas narrativos de Jim, temos:

                PN3 = venda do relógio [Jim → (Jim Ω pentes)]
               
                No PN3, Jim é tanto o sujeito do fazer, quanto o sujeito do estado.
                O último programa narrativo tem Madame Sofronie como sujeito do fazer e Della como sujeito do estado:

                PN4 = compra do cabelo  [Madame Sofronie → (Della U cabelo)]

                Em todos os programas narrativos, a manipulação ocorre por um querer fazer (repectivamente: querer economizar dinheiro, querer vender o cabelo, querer vender o relógio e querer comprar o cabelo). No que se refere à competência, também em todos os programas narrativos o sujeito que realiza a transformação é dotado de um poder e de um saber fazer. A perfórmance é confimada em todos os programas narrativos também. E a sanção em todos é do tipo cognitiva.

Nível Fundamental
               
                Há no texto uma oposição entre o sacrifício e o desmerecimento, sendo dois elementos contrários. Ao primeiro, aplica-se uma qualificação eufórica e ao segundo, uma qualificação disfórica. Geram-se assim dois elementos contraditórios: não-sacrifício (que implica o desmerecimento) e o não-desmerecimento (que implica o sacrifício). Temos, então, o seguinte quadrado semiótico:



Dicas para aprender um novo idioma

12 Dicas que funcionam para aprender um novo idioma



Identificação e reconhecimento de morfemas de línguas desconhecidas


              Identificação e reconhecimento de morfemas de línguas desconhecidas (como africanas, ameríndias, crioulas, filipinas, etc)

                Metodologias de análise que foram utilizadas:

·         Segmentação dos morfemas constituintes das formas linguísticas.
·         Definição do número de morfemas utilizados para um determinado corpus apresentado.
·         Observação da posição dos morfemas.
·         Observação de regularidades e irregularidades quanto à posição.
·         Comparação com a tradução em língua portuguesa.
·         Observação das estruturas e regras de organização dos morfemas.

        Através da identificação e reconhecimento dos morfemas de outras línguas, é possível comparar e fazer uma analogia em relação aos morfemas da língua portuguesa.
        Durante a análise da língua yagua, falada no Peru, foi observado que um único lexema pode carregar, com seus diversos morfemas, significados que em língua portuguesa teriam a dimensão de uma frase.
        Na língua portuguesa, os verbos podem trazer, além do morfema raíz, morfemas que indicam modo e tempo verbais e morfemas que indicam informações de pessoa (primeira, segunda ou terceira) e número (singular ou plural). Porém, algumas conjugações, frequentemente, podem conter morfema zero no lugar do morfema modo-temporal ou do morfema número-pessoal.
        A língua yagua apresenta morfemas com informações de pessoa, gênero e número, um radical, indicação da já realização ou não de um feito e indicação temporal.
        Exemplo:

        TSANČARÚUYTSÍMÁA (Ele já quis tecer há algum tempo)

        Com a análise dos demais lexemas apresentados no corpus, foi possível identificar, observando a frequência, repetição e posição, cada morfema:

TSA - NČA - RÚUY - TSÍ - MÁA

        Diferentemente da língua portuguesa, o radical (acima em destaque) não aparece na posição de primeiro morfema. Por exemplo, em "FALÁVAMOS", observa-se o radical na primeira posição. Já em "TSA.NČA.RÚUY.TSÍ.MÁA", o radical é precedido por um morfema (TSA) indicador de pessoa, número,  gênero: terceira pessoa, singular e gênero masculino, portanto, ELE.
        O morfema "TSA" da língua yagua traz consigo uma informação de ordem gramatical que não se encontra, através de morfemas (no verbo), na língua portuguesa: o gênero. Em um verbo em língua portuguesa, onde todos os morfemas são preenchidos ou mesmo apresente morfema zero, não há fornecimento de informação de gênero, sendo este extraído do contexto da sentença em que o verbo está inserido. Exemplo: em "Falou ontem", não há como depreender informação de gênero.
        Em yagua, o morfema raíz (NČA - "tecer") representa o verbo principal. Este, como já citado, é precedido pelo morfema indicador de pessoa, número e gênero (TSA - "ele") . No que se refere aos morfemas pós-fixados, encontramos o morfema indicador do verbo não principal (RÚUY - "querer"), morfema temporal (TSÍ - "há algum tempo") e morfema indicador da já realização ou não de um feito (MÁA - "já").
        Os morfemas temporais na língua yagua não indicam o tempo verbal propriamente dito, como ocorre em português. Eles indicam, pois, o que em português só pode ser representado por um advérbio (separado do lexema "verbo"). Eis dois exemplos de morfemas temporais em yagua e suas respectivas traduções:
       
·                TSÍ - HÁ ALGUM TEMPO
·                HÁY - ONTEM

               A ausência de morfema temporal em yagua causa consequentemente a presença de um morfema zero, representando tempo presente.
               Também representando o que em português seria indicado por um advérbio (no caso, temporal), o morfema indicador da já realização ou não de um feito ocupa sempre a última posição:
               TSANČARÚUYTSÍMÁA
               Sua tradução é feita pelo advérbio temporal "já".
               Quanto à estrutura das posições dos morfemas em yagua, pode-se fazer um contraste quanto às estruturas que ocorrem no português.
  
        Observa-se portanto que na língua yagua, falada no Peru, a estrutura é mais rígida por ser uma língua de morfemas lexicais.
        O tempo verbal é indicado através de morfemas lexicais identificadores de tempo (máa: ja, tsí: há algum tempo, háy: ontem). O sujeito, diferenciando gêneros masculino e feminino, é pré-fixado ao radical.
        Quanto ao verbo auxiliar, há uma pós fixação em relação ao radical (verbo principal), formando uma estrutura oposta à do português.
        Para os morfemas temporais, tsí e háy, são postos após o verbo principal ou (quando houver) após o verbo não principal, podendo ou não serem os últimos morfemas, já que aceitam morfemas após eles. Quanto ao morfema máa, há ocorrência apenas na última posição, não aceitando morfemas após ele.
        Nota-se, então, que a posição que ocupam os morfemas nas línguas, suas frequências, bem como o significado que eles representam (tempo; pessoa; número; infomações exteriores à língua, no caso dos morfemas raíz; gênero, etc) são fatores morfológicos essenciais para a identificação e o reconhecimento de morfemas em línguas a serem analisadas.