sábado, 8 de novembro de 2014

Notícias de Temática “Greve”: Português do Brasil x Português de Portugal




            Tema escolhido: escolhemos a análise do tema “Greve” por ser um tipo de movimento encontrado em todo o mundo, sobretudo num cenário que relaciona trabalhadores e condições de trabalho. A escolha foi feita visando também tratar de analisar o modo que é tratada tal temática do ponto de vista brasileiro e português.

            Procedimento de coleta de dados: o corpus foi obtido através de mecanismos de busca na internet em sites de periódicos brasileiros e portugueses. Houve predomínio dos jornais (em suas versões online) “O Estado de S. Paulo” (brasileiro) e “Correio da Manhã” (português). Trabalhamos com aproximadamente 12.000 palavras (6000 contidas nas notícias de temática “Greve” em jornais onlines brasileiros e 6000 em jornais online portugueses)

Procedimento de tratamento de dados: Dividimos os dados em duas partes: português brasileiro de português de Portugal através de etiquetagens (<português=portugal> e <portugues=brasil). Através da função “Concordances et inventaires distributionnels” do programa Léxico3, focamos nossa análise na comparação da ocorrência da voz passiva e do uso dos termos “trabalhadores” e “funcionários”. Através dos termos que circundam a voz passiva ou tais termos citados, notamos as diferenças no uso nas versões.

Resultados obtidos: Quanto ao uso da voz passiva, constatamos que a maior parte dos casos ocorre em função do verbo “ser” no pretérito perfeito, na terceira pessoa do singular seguido, então, de particípio passado (FOI + P.P). Contudo houve ocorrências, em menor frequência do verbo “ser” em outros tempos verbais:

Verbo “ser” + P.P
Número de ocorrências – Português - Brasil
Número de ocorrências – Português - Portugal
É + P.P
3
2
Foram + P.P
6
6
Será + P.P
7
2
Foi + P.P
20
2
Serão + P.P
2
3
Seriam + P.P
2
0
Fosse + P.P
3
1

Demais ocorrências foram insignificantes ou nulas.

Quanto ao uso dos termos “funcionários” e “trabalhadores”, verificamos que “funcionários” predomina nas notícias brasileiras, enquanto “trabalhadores” nas notícias portuguesas conforme nos mostra as informações do gráfico:


Trabalhadores em azul / Funcionários em vermelho.

Análise dos dados: Verificamos que o uso da voz passiva predomina nos textos jornalísticos brasileiros. Quarenta e três ocorrências dentre os textos brasileiros e 16 dentre os portugueses. Em relação ao tempo verbal (seguido de particípio) que apresentou mais casos (FOI + P.P), 91% das ocorrências foram nos textos brasileiros.
No que se refere aos termos “funcionários” e “trabalhadores”, de modo geral, o maior contraste diz respeito a “funcionários” cuja freqüência nas notícias lusas é extremamente baixo (apenas 5 ocorrências), maioria delas relacionadas a palavra “sindicato” (e derivados):

...A ADEDY, a central sindical dos funcionários, também anunciou que vai aderir a este protesto . Uma nova greve geral , a quarta...

...segundo as previsões dos sindicatos, deverá contar com a adesão de 250 mil funcionários . As consultas externas e as cirurgias deverão figurar...

Breves definições de Subjetividade



                 Para Benveniste (em “Problemas de Linguística Geral”) a subjetividade é “a capacidade do lucutor para se propor como ‘sujeito’”, e é determinado pelo status linguístico da “pessoa”. Para o autor, é necessário, para se ter consciência de si mesmo, a percepção do “tu”, ou seja, para que um sujeito se auto-denomine “eu” ele precisa estar contrastado a uma alocução (tu), formando uma situação de interlocução (lembrando que “ele”, para Benveniste, é visto como uma não-pessoa, por não fazer parte desta relação de interlocução). O “eu” é o meio por qual o locutor irá se apresentar como sujeito. Esse pronome pessoal utilizado, porém, não se refere a um indivíduo em particular, tampouco a todos os indivíduos que o utilizam para se autodenominarem, sua função é se referir “ao ato do discurso individual no qual é pronunciado, e lhe designa o locutor”. Tendo o sujeito como uma referência, ao seu redor, há relações de espaço e tempo, que são apontadas por dêiticos (aqui, agora, ontem, lá, então, etc). Através de tais formas linguísticas (de pessoa, tempo e espaço) é expressa a subjetividade.

            Outra definição de subjetividade extraídado dicionário online “Dicionário Informal”segue abaixo:


Subjetividade é o que se passa no intimo do individuo. É como ele vê, sente, pensa à respeito sobre algo e que não segue um padrão, pois sofre influências da cultura, educação, religião e experiências adquiridas.
- Subjetividade é quando expressamos nosso ponto de vista pessoal, de acordo com as influências acima descritas
é por esta razão que dizemos que a opinião de cada um é muito pessoal ou seja: subjetiva:
*Eu amo o Corinthians! Adoro jiló!
* Gosto é subjetivo.
* Opinião é subjetiva
* Sentimento é subjetivo

(http://www.dicionarioinformal.com.br/subjetividade/ - último acesso em 08/04/2013)

            Da definição acima poderia se considerar a subjetividade como um “reflexo” do “ego”, ou seja, o que se sente por ser quem se é, o íntimo de si mesmo. De acordo com o conceito de Émile Benveniste, a subjetividade ultrapassa expreriências vividas e assegura a permanência da consciência. No que se refere à função de expressar o ponto de vista (pessoal), ambas as definições entram em acordo (cada uma à sua maneira). Por um lado, Benveniste exemplifica através de certos verbos (usados em primeira pessoa) a indicação da subjetividade na língua (por exemplo: “eu suponho que ele venha”, onde há a subjetividade no verbo “supor”). O “Dicionário Informal”, sem se ater ao detalhe do uso do verbo em primeira pessoa (que podería ser “achar”, “jurar”, “prometer”, entre outros) indica a presença da subjetividade quando o sujeito expressa uma opinião pessoal, quase como se fosse uma opinião ou ponto de vista intrínseco do falante, independentemente de seu “papel” de pessoa no discurso.

Enunciação na canção "João e Maria" de Chico Buarque e Sivuca





 João e Maria
(Intérprete: Chico Buarque / Autoria: Chico Buarque e Sivuca)
Agora eu era o herói
E o meu cavalo só falava inglês
A noiva do cowboy
Era você além das outras três
Eu enfrentava os batalhões
Os alemães e seus canhões
Guardava o meu bodoque
E ensaiava o rock para as matinês
Agora eu era o rei
Era o bedel e era também juiz
E pela minha lei
A gente era obrigado a ser feliz
E você era a princesa que eu fiz coroar
E era tão linda de se admirar
Que andava nua pelo meu país
Não, não fuja não
Finja que agora eu era o seu brinquedo
Eu era o seu pião
O seu bicho preferido
Vem, me dê a mão
A gente agora já não tinha medo
No tempo da maldade acho que a gente nem tinha nascido
Agora era fatal
Que o faz-de-conta terminasse assim
Pra lá deste quintal
Era uma noite que não tem mais fim
Pois você sumiu no mundo sem me avisar
E agora eu era um louco a perguntar
O que é que a vida vai fazer de mim?
Fonte: http://letras.mus.br/chico-buarque/45140/ 

            Analisando a enunciação que se faz presente na letra da canção “João e Maria” de Chico Buarque e Sivuca, através de uma visão bakhtianiana, podemos notar, entre as várias leituras possíveis, a voz de alguém que ocupa a posição social de um garoto em um mundo de fantasias, onde se imagina em uma situação fora da realidade, fazendo parte do mundo criado pela brincadeira e pela imaginação. Nesse mundo imaginário, aparece um sentido ideológico de força e poder, ou seja, o garoto, da sua posição social de “garoto sonhador”, é denominado como herói (agora eu era o herói), valente (eu enfrentava os batalhões), alguém que ocupa cargos de superioridade (agora eu era o rei,
era o bedel e era também juiz).  Esse sujeito se dirige a um interlocutor (seu “outro”) através da palavra, e é esta que cria uma ligação entre eles. Tal interlocutor é representado pela forma “você” (anoiva do cowboy
era você além das outras três / e você era a princesa que eu fiz coroar / pois você sumiu no mundo sem me avisar). A interação que há entre o locutor e o interlocutor se dá por estarem ambos adotando um papel social em um dado contexto. Além do papel de “garoto sonhador” (devido ao estar  em um mundo de imaginação), pode-se  dar ao locutor um lugar social referente a paixão (de um apaixonado), e por sua vez, a seu interlocutor (tu), o lugar social de alguém que não corresponde a um amor (o que se verifica em: “Não, não fuja não”, “Pois você sumiu no mundo sem me avisar”).
            Alguns índices enunciativos, tais como indica Benveniste, podem ser encontrados na letra da canção, a saber:

            - Índices de pessoa:
            EU: Agora eu era o herói.
            TU:  Era você além das outras três

            - Índices de tempo (também presentes no tempo e modo verbal):
            AGORA: Agora eu era o herói
            ENTÃO: Guardava o meu bodoque / No tempo da maldade acho que a gente nem tinha nascido

            - Índices de espaço (também presentes em certos modos verbais de certos verbos):
            AQUI:  Vem, me dê a mão /Pra lá deste quintal.

            Uma vez que encontramos índices de pessoa (eu/tu), a enunciação está enunciada. O “eu” do texto, ou seja, seu locutor, está produzindo um enunciado já que que está utilizando e colocando a língua em funcionamento de modo individual e, assim, está se propondo como sujeito. Se há enunciação, o sujeito está comprometido com ela. Vendo a enunciação pelo aspecto que Benveniste chama de “quadro formal de sua realização”, temos na letra da música um locutor (EU) e um locutário (Você), e a língua expressa uma relação com algo extralinguístico (algo do mundo), que poderia ser a vida imaginária (como herói, rei, bedel, juíz, etc) contada pelo locutor. No que se refere ao “aparelho de funções” (interrogação, intimação e asserção), encontramos presentes as três funções, seguem abaixo alguns exemplos:

            - Asserção (a mais presente):
            Agora eu era o herói
            Agora eu era o rei
            Era o bedel e era também juiz
            E pela minha lei
            A gente era obrigado a ser feliz
            E você era a princesa que eu fiz coroar
           
            - Intimação:
            Não, não fuja não
            Finja que agora eu era o seu brinquedo
            Eu era o seu pião
            O seu bicho preferido
            Vem, me dê a mão

            - Interrogação:
            E agora eu era um louco a perguntar
            O que é que a vida vai fazer de mim?

            No caso da interrogação presente, a resposta não é de responsabilidade do alocutário, mas do próprio locutor, que pergunta a si mesmo, ou, de um outro ponto de vista, poderíamos dizer que se trata até de uma pergunta retórica (portanto que não suscita uma resposta evidente). A enunciação está portanto, sob uma visão que está,de acordo com Benveniste, estruturada no diálogo que se dá entre locutor e alocutário.